As lições do <i>Occupy Wall St.</i> (1)

António Santos

O meu pai era mineiro / Hoje é sol e ar / E há-de estar com os trabalhadores / Até a luta terminar / De que lado estás? / De que lado estás? / Dizem que no Condado de Harlan / Por lá não há neutrais / Ou és do sindicato / Ou um capanga do J.H. Blair / De que lado estás?/ De que lado estás?

É assim a canção que os mineiros estado-unidenses cantavam nos anos 30, quando enfrentavam, ombro a ombro, a avidez dos patrões. Nos anos da Grande Depressão, o deus-banqueiro defenestrava uns capitalistas do alto dos arranha-céus e multiplicava a opulência de outros, enquanto o desemprego e a miséria deserdavam toda a classe trabalhadora. Hoje, os EUA voltam a conhecer níveis análogos de desigualdade, os mais altos em 80 anos, mas agora são os trabalhadores que se atiram das janelas.

Quando, em 2011, o movimento Occupy Wall St. se tornou demasiado grande para ser ignorado, o New York Times queixava-se: «Nem têm uma lista de exigências ao Congresso. Mas afinal o que é que eles querem?!». As classes dominantes estavam perplexas: os jovens que ocupavam as praças de mais de mil cidades não estavam apenas a protestar contra os desalojamentos das famílias que não podiam pagar as casas; denunciavam mais do que a bancarrota dos clientes da saúde; criticavam mais do que a insustentável dívida dos estudantes. Condenavam a desigualdade estrutural do sistema e, em vez de olhar caridosamente para os de baixo, apontavam o dedo aos de cima. A simplicidade axiomática da formulação «os 99% contra os 1%» conquistaria o coração dos americanos e o ódio do grande capital. Os senhores da ganância e do privilégio, que dos quinquagésimos andares brincam com dinheiro e com vidas, não conseguiam compreender o alcance do movimento. Então na sua húbris, como já não o podiam ignorar, riram-se dele. E quando já não se podiam rir dele, tentaram destruí-lo à bastonada. Mas afinal, o que queria o Occupy? O que explica o seu fulgurante aparecimento e ocaso? A resposta está na própria História dos EUA.

A excepção da regra e a regra da excepção

Quando o guru dos liberais Alexis de Tocqueville percorreu os EUA no segundo quartel do séc. XIX, descreveu um país único: destituídos de Idade Média e fundados por puritanos fanáticos, os EUA foram alicerçados numa ideologia nacional. Note-se que o gentílico «americano» nos remete para uma geografia perigosamente abstracta – ser «americano» seria mais do que nascer na Florida ou em Cuba, mas um jus soli de território moral. O mapa axiológico do «americanismo», a ideologia nacional dos EUA, cultiva uma visão maniqueísta do mundo, em que a ética é o fundamento da política e os EUA surgem como o representante demiúrgico da moralidade e da religião contra o estrangeiro ímpio e bárbaro.

A doutrinação do «americanismo» percorre os dois séculos da narrativa histórica dos EUA, criando um quadro filosófico fecundo para o cultivo do idealismo, do individualismo, da propriedade e liberdade privadas e da religião. O próprio movimento comunista estado-unidense, desgastado por cem anos de chumbo e repressão, deixou-se várias vezes cair nesta falácia. Com efeito, a própria expressão «excepcionalismo americano», que hoje os neoconservadores ventilam, tem origem na crítica de Estaline a Jay Lovestone, secretário-Geral do PCEUA nos anos 20, que defendia que este país era tão único que as leis do materialismo histórico não se lhe aplicavam. A Grande Depressão veio atirar definitivamente as ideias de Lovestone para o caixote do lixo da história: nada nos EUA é «excepcional» para além do proeminente estádio de desenvolvimento do seu capitalismo (também um cancro se desenvolve).




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